OBSERVATÓRIO | Matéria publicada no O Globo em 19.06.2013
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Matéria publicada no O Globo em 19.06.2013

Matéria publicada no O Globo em 19.06.2013


Matéria publicada no O Globo em 19.06.2013

Imprudência e velocidade reforçam as estatísticas

RIO – O médico Dirceu Alves faz um comparativo do impacto de uma batida. Uma colisão a 60km/h, por exemplo, equivale a uma queda livre do 11º andar de um prédio. E se no choque o carro estiver a 120km/h, o impacto é similar ao de uma queda do 45º andar.

Quer pôr a culpa do acidente na curva ou na falta de luminosidade? Nem adianta. O relatório do ONSV mostra que mais de 60% dos acidentes ocorreram durante o dia e em pista seca. E, mesmo sob chuva, 66% dos registros foram em retas.

Para os especialistas, as informações não surpreendem. Na lógica, em retas, de dia, em uma rodovia bem asfaltada e sinalizada, o condutor tende a se distrair mais, aumentar a velocidade e até relaxar a ponto de sentir sonolência.

Tempere isto com a conhecida imprudência do motorista brasileiro e chegamos ao cenário assustador que pode ser dissecado nos números que o leitor acompanha nesta matéria. São atos que vão além do excesso de velocidade.

Álcool e drogas entre os principais problemas

O Observatório Nacional de Segurança Viária pôs pesquisadores em pontos da cidade de São Paulo para observar o comportamento dos motoristas. E também constatou que uma infração de trânsito é cometida a cada 2,23 minutos.

Outro estudo fez um comparativo com a Rússia. Lá, das mais de 20 mil mortes nas ruas e estradas em 2012, 14% tiveram como causa principal o uso de álcool pelo motorista. Aqui, essa proporção sobe para 21%. Segundo o Ministério da Saúde, em 2011, uma em cada cinco vítimas de trânsito tinha ingerido bebida alcoólica.

Uso do celular, ocupantes sem cinto de segurança (nos bancos dianteiros e traseiros), não uso da seta de indicação e desrespeito à sinalização são outras infrações cotidianas comuns. Isso sem falar no uso de álcool e de drogas. Para os analistas, atitudes que passam por uma má formação que vai além da velha auto-escola.

— A conscientização vem da infância. Temos de fazer o indivíduo ter educação de trânsito, como previsto na lei — defende Dirceu Alves.

O diretor da Abramet se refere ao Código Brasileiro de Trânsito (CBT) de 1997, que estabelece, entre tantas coisas, a educação de trânsito desde o ensino fundamental. Poucas instituições de ensino no país, porém, aplicam a disciplina.

— A formação do condutor é importante e deveria acontecer desde cedo, pois na auto-escola não se ensina o básico, que é a educação. Fica difícil mudar os conceitos de que o amarelo é “vai que dá” e a prioridade do cruzamento é “de quem chegar primeiro”— observa José Aurélio.

Eles também defendem uma modificação drástica nos métodos de ensino dos Centros de Formação de Condutores (CFC). Para eles, os candidatos à carteira de habilitação só decoram o que têm de fazer no exame.

O diretor do ONSV cita exemplos das provas do Detran, onde se pergunta o que significa uma placa e não qual atitude o motorista tem de tomar perante aquela sinalização.

— Ele sabe o que significa mas não sabe o que faz. O sujeito hoje é adestrado para passar na prova — reclama José Aurélio, criticando outras questões dos exames para se tirar a carteira de habilitação. — Na prova há perguntas, como “o que significa Detran?” — critica.

Dirceu Alves vai além e reforça a importância de que os alunos usem simuladores antes de pegar no volante de verdade.

Esse equipamento, que parece um videogame, já é realidade. Resolução do Contran prevê que a partir do mês que vem todos os CFCs terão de oferecer o Simulador de Direção Veicular. O treinamento virtual será de cinco horas, antes das 20 horas de prática, e valerá apenas para alunos em busca da categoria “B”.

Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que desenvolveu o simulador, revelou que metade das pessoas que passaram pela máquina se envolveram em menos acidentes nos dois anos seguintes.

— Esse treinamento seria semelhante ao da aviação. Qual piloto de teco-teco sai voando de Boeing por aí? — questiona Dirceu.

Em setembro do ano passado, três diferentes ministérios lançaram o Pacto Nacional pela Redução de Acidentes com a meta de, até 2020, reduzir à metade o número de vítimas.

Acidentes custam R$ 40 bilhões

A meta é ambiciosa e o retrospecto recente não anima. Na última década, a taxa de mortes no trânsito da Europa teve uma redução média de 5%, enquanto no Brasil o número cresceu 5%. O Instituto Avante até fez um cálculo assustador que aponta que, nesse ritmo, o país registraria 313 mil óbitos no trânsito em 2060.

O projeto também tem a intenção de aliviar a carteira do Estado. Levantamentos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam que cada vítima grave do trânsito custa, em média, R$ 200 mil, e cada óbito, R$ 800 mil.

A entidade calcula que, hoje, os acidentes no Brasil custem R$ 40 bilhões por ano aos cofres públicos (US$ 17 bilhões), entre resgates, tratamentos, indenizações, pensões por invalidez. O custo de reconstrução da Bósnia depois dos ataques sérvios, em 1995, foi equivalente a US$ 10 bilhões.

Ao chegar no ponto final desta reportagem, uma pessoa já terá morrido em alguma estrada ou rua do país. E a guerra não tem trégua.

Fonte: O Globo

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