OBSERVATÓRIO | Sobre homens e carros
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Sobre homens e carros

Sobre homens e carros


Sobre homens e carros

A relação entre pessoas e automóveis é muito curiosa. Poucos objetos promovem tanta sedução quanto os carros fazem com os homens (e “homens”, aqui, é o gênero masculino, majoritariamente). O carro seduz porque é uma espécie de extensão do corpo. Dá a sensação de que o indivíduo se torna mais potente, menos lento, mais robusto, menos vulnerável.

A sedução passa, primeiramente, pela potência do motor. Curiosamente, a unidade de medida dos motores é “cavalo de força”. Nada mais sintomático! Uma alusão à masculinidade dos equinos e a força de seus corpos. Quanto mais cavalos um motor possui, mais virilidade sugere. Corridas de carro são mania mundial. A relação entre velocidade e masculinidade já mereceu estudos psicológico-comportamentais interessantes.

Para o psicólogo Francesco Albanese, que há anos estuda psicologia do trânsito, é preciso voltar a Freud e à psicanálise. Por estar associado subjetivamente a atributos considerados viris, como velocidade e potência, o carro se presta melhor a ser alvo de um processo de identificação masculina. E onde há identificação, há projeção da própria personalidade. Não por acaso, o homem tende a revestir o carro de significados simbólicos, a ponto de humanizá-lo como se fosse uma mulher a ser amada.

O automóvel também seduz porque é uma espécie de extensão da casa. Enquanto homens procuram um modelo potente e veloz, mulheres querem um produto seguro e, de preferência, mais funcional. Eles fazem do carro o espaço do conforto e do sossego que querem em casa; espaço do descanso e do lazer de quem trabalha o dia todo. Elas preferem algo mais funcional e prático, como o fazem também em relação a casa, já que, via de regra, têm jornada dupla de trabalho. Em geral, o homem dedica ao próprio meio de transporte atenções que não reserva para nenhum outro objeto. O mesmo indivíduo que nem sonharia em dar uma enxaguada nos pratos sujos na pia de casa é capaz de despender tempo e energia para lavar o próprio veículo.

Os automóveis estão cada vez mais confortáveis e sedutores internamente: climatizadores, som ambiente, recursos tecnológicos etc. Como extensão do corpo e da casa, os carros são produzidos meticulosamente para atender às demandas, mais que utilitaristas, psicológicas de homens e mulheres. A indústria sabe se basear no conhecimento cada vez mais sofisticado que se tem do gênio humano. Carros são como que projeções do “eu”.

Para além dos estereótipos que a relação homem e carro reforça, a questão da velocidade é a que salta aos olhos de forma mais destacada. A forma como dirigimos pode ser vista como uma representação de nosso funcionamento psicológico, revelando não só escolhas, hábitos e crenças – muitas delas originadas na infância –, mas também aspectos reprimidos ou disfarçados de nossa personalidade. A “impotência” diante da vida e suas agruras é contrabalançada pela “potência” dos motores; ou, na mesma direção, o “poder” da conta bancária é exteriorizado por meio do brilho e da velocidade do carro do ano.

Há, porém, uma explicação neurobiológica para o fascínio pelas altas velocidades: a consciência (ainda que parcial) do risco desencadeia no organismo reações neurológicas e hormonais. A elevação dos níveis de adrenalina induz à hiperatividade do sistema nervoso e confere uma espécie de euforia artificial que, para alguns, pode resultar em satisfação. O carro dá ao motorista a oportunidade de experimentar seu corpo elevado a velocidades que, por si só, não alcançariam. Correr faz parte do sonho humano por superação.

A questão, todavia, que deve ser colocada passa pelo espaço em que tudo isso ocorre: a rua, o espaço público. “Corpo” e “casa” são, fundamentalmente, espaços privados; “carros” são objetos que transitam no espaço público. A confusão entre carros, corpos e casas gera, invariavelmente, a exacerbação e a violação. Na rua (público), por se estar dirigindo um automóvel (privado), confunde-se as esferas e se age como se não houvesse outros compartilhando os espaços. Faz-se da rua extensão do carro, da casa e do corpo; privatiza-se o público para benefício exclusivo de um indivíduo. Resultado: violência e descumprimento pleno das regras básicas do trânsito; acidentes, sequelas, invalidez e, nada menos, que cem mil mortes nos últimos cinco anos, no Brasil.

A violência no trânsito está diretamente relacionada a compreensão do objeto transportador como extensão do indivíduo. Enquanto houver a associação do carro com a capacidade (econômica, social e “sexual”) do indivíduo, haverá a possibilidade imensa de usurpação do espaço público e a violação das leis elementares da convivialidade.

De carro, muitos se sentem mais prontos para suas guerras pessoais (quaisquer que sejam elas). A sensação de proteção que o recolhimento atrás de vidros escuros dá faz com que o motorista se sinta num tanque de guerra próprio. Dividindo o espaço público, porém, há um outro indivíduo não completamente visível e, portanto, não identificado como uma pessoa digna de respeito ou piedade.

Talvez a solução esteja no incremento dos transportes públicos (em que essa “virilização” do indivíduo desaparece) e no avanço das novas tecnologias para a engenharia viária (por exemplo, carros autodirigíveis). Quem sabe, assim, nossos potentes carros (com mais de duzentos cavalos de força para, contraditoriamente, enfrentar engarrafamentos!) serão transferidos para a esfera do esporte e para a arena dos autódromos.

As ruas precisam voltar a ser espaço, simplesmente, do deslocamento e do encontro!

Ricardo Lengruber Lobosco

Coordenador do Programa de Redução de Violência no Trânsito de Nova Friburgo-RJ, Doutor em Teologia, Historiador e Filósofo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos seus autores, não representando portanto a opinião desta organização.

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